A escola deve ser um ambiente de aprendizagem, desenvolvimento humano e convivência respeitosa entre pessoas com diferentes convicções religiosas, filosóficas e culturais.
Filhos de pais ateus, agnósticos ou sem religião possuem os mesmos direitos e merecem o mesmo respeito dispensado aos estudantes pertencentes a qualquer tradição religiosa.
Esta Diretiva orienta famílias sobre como identificar situações de discriminação, como agir preventivamente e quais medidas podem ser adotadas para proteger crianças e adolescentes.
O que os pais precisam saber?
A liberdade de consciência é um direito fundamental
A Constituição Federal estabelece:
Art. 5º, VI“É inviolável a liberdade de consciência e de crença.”
Também determina:
Art. 5º, VIII“Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica.”
Essas garantias protegem igualmente pessoas religiosas e não religiosas.
Crianças e adolescentes também possuem direitos fundamentais
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina:
Art. 15“A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade.”
Além disso:
Art. 17“O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente.”
A proteção alcança suas convicções pessoais e familiares.
O Estado brasileiro é laico
A Constituição Federal dispõe:
Art. 19, I“É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas.”
Escolas públicas não podem favorecer determinada religião nem tratar estudantes de forma diferenciada por suas crenças ou ausência delas.
Ensino religioso não é participação religiosa
O ensino religioso previsto no art. 210, § 1º, da Constituição Federal integra os horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.
Entretanto, sua matrícula é facultativa.
Nenhum aluno pode ser obrigado a frequentar atividades religiosas contra sua vontade ou contra a vontade de seus responsáveis.
Escolas confessionais possuem limites
Pais possuem liberdade para matricular seus filhos em escolas confessionais.
Contudo, mesmo instituições privadas:
- devem respeitar a dignidade dos estudantes;
- não podem promover humilhações;
- não podem discriminar alunos por ausência de crença;
- não podem constranger estudantes a declarar fé religiosa.
A liberdade institucional da escola não elimina os direitos fundamentais dos alunos.
O que fazer?
Antes da matrícula
Recomenda-se verificar:
- projeto pedagógico;
- regimento escolar;
- proposta religiosa da instituição;
- existência de cultos obrigatórios;
- frequência de celebrações religiosas;
- regras sobre participação em atividades confessionais.
Sempre que possível, solicite essas informações por escrito.
Durante a vida escolar
Converse com seu filho regularmente sobre:
- experiências na escola;
- comentários de professores;
- atividades religiosas;
- situações de exclusão ou constrangimento.
Muitas situações de discriminação são percebidas primeiro pelas próprias crianças.
Se houver oração coletiva
Situação aceitável
Participação voluntária.
Situação problemática
Participação obrigatória.
Nenhum estudante deve sofrer punição, exposição ou constrangimento por optar por não participar.
Se houver atividades religiosas obrigatórias
Solicite esclarecimentos à escola.
Peça formalmente:
- dispensa da atividade;
- atividade alternativa;
- registro da solicitação.
Guarde toda a documentação.
Se um professor ridicularizar a ausência de religião
Documente:
- data;
- local;
- testemunhas;
- conteúdo da manifestação.
Em seguida:
- Comunique a coordenação;
- Comunique a direção;
- Formalize reclamação por escrito.
Se colegas praticarem discriminação
A escola possui dever de agir.
Ela deve:
- apurar os fatos;
- proteger a vítima;
- adotar medidas pedagógicas adequadas;
- prevenir novas ocorrências.
Exemplos de situações preocupantes
- Obrigar alunos a rezar;
- Exigir profissão de fé;
- Associar ateísmo à imoralidade;
- Ridicularizar alunos sem religião;
- Impedir participação em atividades por motivos religiosos;
- Expor estudantes perante colegas por sua ausência de crença;
- Pressionar crianças para conversão religiosa;
- Distribuir material evangelístico sem possibilidade de recusa.
Como denunciar?
A APCE acompanha casos envolvendo:
- discriminação religiosa;
- discriminação contra ateus e agnósticos;
- constrangimento em ambiente escolar;
- imposição de práticas religiosas;
- violação da liberdade de consciência.
Mini App Denúncia!
O principal canal de recebimento de relatos é o mini aplicativo Denúncia!, disponível no aplicativo oficial da APCE.
Por meio dele é possível:
- registrar ocorrências;
- anexar documentos;
- enviar fotos, vídeos e áudios;
- relatar testemunhas;
- solicitar orientação.
Outros órgãos que podem ser acionados
Secretaria de Educação
Quando envolver escolas públicas.
Ministério Público
Com fundamento nos arts. 127 e 129 da Constituição Federal.
Conselho Tutelar
Quando houver violação de direitos da criança ou adolescente.
Defensoria Pública
Quando a família necessitar de assistência jurídica.
Ministério da Educação
Em situações que envolvam instituições privadas sujeitas à supervisão educacional.
O que a APCE poderá fazer?
A APCE poderá:
- orientar pais e responsáveis;
- auxiliar na documentação dos fatos;
- encaminhar representações administrativas;
- acompanhar casos de interesse coletivo;
- produzir relatórios institucionais;
- atuar na defesa da liberdade de consciência de estudantes e famílias.
Fundamentação jurídica resumida
Constituição Federal
- Art. 5º, VI: liberdade de consciência e crença;
- Art. 5º, VIII: convicção filosófica;
- Art. 19, I: laicidade do Estado;
- Art. 210, § 1º: ensino religioso de matrícula facultativa;
- Arts. 127 e 129: Ministério Público.
Estatuto da Criança e do Adolescente
- Art. 15: direito à liberdade, ao respeito e à dignidade;
- Art. 17: inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral.
Lei de Diretrizes e Bases da Educação
- Art. 33: ensino religioso de matrícula facultativa.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui orientação jurídica individualizada.